No Japão há 100 mil pessoas com um século de vida

No Japão há 100 mil pessoas com um século de vida

Os especialistas explicam que a alimentação, com predominância no peixe, nos vegetais e no arroz, são apontados como fatores associados à longevidade. Por causa do processo de envelhecimento, o hábito de consumo dos japoneses também se alterou: a venda de fraldas para adultos já é superior às de criança.

Filipe Alexandre Gonçalves - RTP / Adicionar como fonte informativa
A transformação demográfica tem levado as empresas a desenvolver produtos destinados à população envelhecida. Foto: APA-IMAGES VIA AFP

Em 1963, quando o Japão começou a contabilizar oficialmente os centenários, havia apenas 153 pessoas com 100 anos ou mais. Mais de seis décadas depois, o país chegou agora aos 107.677 centenários. 

É um número nunca antes registado no Japão e, pela primeira vez, ultrapassa a barreira dos 100 mil residentes com um século (ou mais) de vida.

Os dados divulgados pelo Ministério japonês da Saúde, Trabalho e Bem-Estar revelam ainda que o número de pessoas com 100 ou mais anos tem vindo a aumentar há 56 anos, de forma consecutiva. Este ano, são mais oito mil centenários do que no ano passado.
As mulheres centenárias estão em maioria. Representam 88% deste grupo, num total de 94.298 pessoas.

No Japão, a pessoa mais velha identificada pelo ministério é Fuyo Kishimoto, uma mulher de 114 anos, residente em Quioto; entre os homens, o mais velho é Hikaru Kato, de 112 anos, da cidade de Kumamoto.

O ministro da Saúde, Kenichiro Ueno, destacou o lado positivo do fenómeno. "Estou muito satisfeito que tantas pessoas se mantenham ativas e saudáveis durante tanto tempo", afirmou, associando a longevidade aos avanços da medicina e da tecnologia.

Vários especialistas acreditam que a alimentação, com predominância no peixe, nos vegetais e no arroz, associada à atividade física e o sistema de saúde são apontados como fatores que fazem aumentar a longevidade.

Mas o recorde no número de centenários tem um reverso.

O Japão enfrenta há décadas um declínio populacional agravado pela baixa natalidade. A taxa de fertilidade caiu para 1,14 filhos por mulher, muito abaixo dos 2,1 necessários para assegurar a substituição das gerações.

Atualmente, cerca de 30% da população japonesa tem 65 ou mais anos. A previsão é de que essa proporção se aproxime dos 40% em 2070. Em sentido oposto, a população total do João deverá cair para cerca de 87 milhões de habitantes, de acordo com os dados do Instituto Nacional de População e Segurança Social do Japão.

As autoridades classificam a tendência da redução da população como uma "crise existencial", com a primeira-ministra Sanae Takichi a descrever o declínio como uma "emergência silenciosa".

O envelhecimento da população está também a exercer uma pressão crescente sobre a economia japonesa, aumentando os custos associados aos cuidados com os idosos e reduzindo a força de trabalho disponível. 
O processo de envelhecimento demográfico já se reflete nos hábitos de consumo dos japoneses: as vendas de fraldas para adultos ultrapassam as de fraldas para bebés há mais de uma década.

A transformação demográfica tem levado também as empresas a desenvolver produtos destinados a uma população cada vez mais envelhecida. 

Entre as soluções criadas estão exoesqueletos motorizados, concebidos para ajudar na movimentação de diferentes partes do corpo, e óculos capazes de ajustar automaticamente o foco, facilitando a visão.

Perante a diminuição da população ativa, o Japão abriu nos últimos anos as portas a trabalhadores estrangeiros, tanto qualificados como para setores que enfrentam falta de mão de obra.

No entanto, o Governo endureceu recentemente alguns requisitos de visto, numa altura em que cresce também o sentimento anti-imigração no país. 

O desafio passa agora por conciliar o envelhecimento da população com a necessidade de manter uma economia capaz de responder à crescente procura por cuidados e serviços.
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